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Artigo · Emagrecimento

Como funciona o processo de emagrecimento: as fases e o que muda no corpo

Por que os primeiros quilos saem rápido, para onde vai a gordura e por que fica mais difícil emagrecer com o tempo

Retrato do Dr. Thiago Viana
Mulher caminhando por uma rua arborizada no início da manhã

Em resumo

O processo de emagrecimento acontece quando o corpo gasta mais energia do que recebe e passa a usar a gordura guardada. A perda não é linear: começa rápida, em boa parte água, e desacelera porque o metabolismo se adapta.

Quem já começou um tratamento para emagrecer conhece a sensação: no início os quilos saem com facilidade, e meses depois perder 1 ou 2 kg de gordura parece mais difícil do que foi perder os 10 primeiros. Isso tem explicação no corpo, e entender cada etapa do processo de emagrecimento ajuda a não desistir no meio do caminho nem tomar decisões que atrapalham o resultado.

É uma queixa que escuto muito no consultório. Das primeiras semanas até a manutenção, o corpo responde de um jeito em cada fase: primeiro perde água, depois gordura, e com o tempo passa a gastar menos e a sentir mais fome.

O que é o processo de emagrecimento

Emagrecer é usar a energia que o corpo guardou. Quando você passa um período comendo menos energia do que gasta, o organismo cobre a diferença com as próprias reservas, principalmente a gordura. Pense em alguém que gasta 2.000 calorias por dia: comer menos do que isso leva à perda de peso, comer a mesma quantidade mantém o peso e comer mais leva ao acúmulo de gordura.

A conta parece simples, mas o corpo não funciona como uma calculadora fixa. A cada quilo perdido ele muda: gasta menos, sente mais fome e se defende para preservar energia. Por isso a perda de peso não acontece em linha reta, e a regra fixa de "tantas calorias por quilo" acaba calculando uma perda maior do que a que acontece de verdade ao longo do tempo (The Lancet).

As fases do processo de emagrecimento

Não existe um calendário igual para todo mundo, mas o que acontece no corpo segue uma sequência parecida. Conhecer as fases do emagrecimento ajuda a entender o que a balança está mostrando em cada momento.

Primeiras semanas: a balança cai rápido, mas boa parte é água

Nas primeiras semanas de déficit, o corpo usa bastante glicogênio, o estoque de carboidrato que fica no fígado e nos músculos. Esse estoque é guardado com muita água: cada parte de glicogênio vem acompanhada de três a quatro partes de água. Quando o glicogênio é usado, a água sai junto.

É por isso que os primeiros quilos parecem fáceis. Parte do que a balança mostra no começo é água, e o ritmo muda quando essa fase passa.

O que fazer: não usar a queda das primeiras semanas como referência para o resto do tratamento.

A perda de gordura

Mantido o déficit, a gordura passa a ser a principal fonte de energia no processo de emagrecimento. As células de gordura liberam os triglicerídeos que guardam, e os músculos e outros tecidos usam esse material para produzir energia. Essa é a perda que interessa, mais lenta e constante do que a queda inicial.

O que fazer: acompanhar a composição corporal, além do peso, para saber se o que está saindo é gordura.

Por onde sai a gordura do corpo

Uma dúvida comum é para onde vai a gordura quando emagrecemos. A maior parte sai pela respiração. De cada 10 kg de gordura usados como energia, 8,4 kg deixam o corpo como gás carbônico, pelos pulmões (BMJ). Os outros 1,6 kg viram água, eliminada pela urina, pelo suor, pelas fezes e pela própria respiração.

Ou seja, a urina e as fezes respondem só por uma parte pequena do que sai.

A desaceleração: o ritmo cai mesmo fazendo tudo igual

Depois de alguns meses, o peso passa a cair mais devagar, mesmo com a mesma alimentação e a mesma rotina. E quanto tempo demora para emagrecer? Depois de uma mudança permanente na alimentação, cerca de metade da perda total acontece no primeiro ano, e quase toda ela se completa em torno de três anos. O corpo vai se aproximando de um novo ponto de equilíbrio.

Essa desaceleração, que muita gente chama de platô, é esperada e não significa que o tratamento parou de funcionar. O que fazer quando ela aparece está no texto sobre efeito platô. Se a perda parou por outro motivo, vale investigar as causas médicas de quando você não consegue emagrecer.

O que fazer: olhar a tendência dos últimos meses e rever o plano com o médico quando o peso estacionar.

Manutenção: a fase que define o resultado

Depois de chegar ao peso desejado, começa a fase de manter o resultado, e ela é um desafio: cerca de 1 em cada 5 pessoas com sobrepeso consegue sustentar uma perda de pelo menos 10% do peso por um ano ou mais. E manter fica mais fácil depois que a pessoa sustenta o novo peso por dois a cinco anos. Os motivos pelos quais o peso volta, e o que fazem as pessoas que mantêm, estão no texto sobre efeito sanfona.

O que fazer: tratar a manutenção como parte do tratamento, com acompanhamento depois de atingir a meta.

Por que quanto mais você emagrece, mais difícil fica

Existem basicamente duas explicações para o emagrecimento ficar mais difícil à medida que você emagrece. A primeira é mais simples. A segunda envolve hormônios e costuma surpreender os pacientes.

Primeira explicação: um corpo menor gasta menos em repouso

A taxa metabólica basal é o que o corpo gasta parado, em repouso, só para se manter funcionando. Pense numa pessoa muito grande, pelo peso ou pela altura: ela precisa de mais energia para se manter do que uma pessoa menor e mais magra.

Para estimar esse gasto existem fórmulas. Uma das mais usadas é a de Harris-Benedict, e há outras, como a de Mifflin-St Jeor. A de Harris-Benedict usa três informações: altura, peso e idade. Quanto maior a altura e quanto maior o peso, maior a taxa metabólica basal. A idade funciona ao contrário: quanto mais idade, menor o resultado.

Durante um tratamento, a altura não muda e a idade muda pouco. O que muda é o peso. Se o peso cai, a taxa metabólica basal cai junto. E como emagrecer depende de comer menos do que se gasta, um gasto menor exigiria comer cada vez menos para manter o mesmo ritmo, o que é difícil de sustentar por muito tempo.

Segunda explicação: a termogênese adaptativa

A segunda causa tem um nome técnico: termogênese adaptativa. É uma redução do gasto em repouso que vai além do que a perda de peso explicaria sozinha. O corpo passa a economizar energia para defender as reservas de gordura.

Entre os fatores envolvidos estão dois hormônios.

O primeiro é o T3, hormônio produzido pela tireoide. Ele acelera as reações químicas do corpo e aumenta a produção de calor, o que eleva o gasto de energia. É por isso que tanta gente associa ganho de peso a problema de tireoide. Durante o emagrecimento, a produção de T3 diminui. Quem mantém o peso mais baixo depois de emagrecer passa a gastar menos energia, tem os hormônios da tireoide reduzidos e fica com os músculos mais econômicos.

O segundo é a leptina, hormônio produzido pela própria gordura. Quanto mais gordura, mais leptina. Ela tem duas funções principais: dar saciedade e ativar o sistema nervoso simpático, que aumenta o gasto de energia em repouso. Quando você perde gordura, a leptina cai, e as duas funções diminuem. Em pesquisa, quando a leptina foi reposta em quem tinha emagrecido, o gasto de energia, o tônus do sistema nervoso e os hormônios da tireoide voltaram aos níveis de antes do emagrecimento, o que mostra o peso desse hormônio no processo.

No vídeo abaixo, falo dessas duas explicações com mais calma, a partir do ponto em que entro na termogênese adaptativa.

Assista: Quanto mais você emagrece, menos você emagrece
Assista: Quanto mais você emagrece, menos você emagrece

Outros vídeos sobre metabolismo e emagrecimento estão na página de vídeos.

A fome também muda

Se a pessoa com obesidade tem mais gordura e, portanto, mais leptina, ela deveria sentir mais saciedade. Na prática não é o que acontece, por causa da resistência à leptina: os níveis do hormônio estão altos, mas o cérebro, na região do hipotálamo, não responde a eles de forma eficiente. Isso acontece na maioria das pessoas com obesidade.

É aquela pessoa que almoça ao meio-dia e às duas da tarde já está comendo uma coxinha. Os amigos dizem que falta força de vontade, mas ela realmente sente mais fome. Por isso costumo dizer que a pessoa com obesidade é mais vítima do processo do que culpada da situação.

E a fome tende a aumentar durante o emagrecimento. Depois de perder peso, a leptina cai bastante e, mais de um ano depois, ainda fica mais de um terço abaixo do valor inicial, com a fome aumentada. Por isso o reganho de peso tem uma base fisiológica forte, que vai além de voltar aos velhos hábitos (New England Journal of Medicine).

O que fazer: planejar a alimentação contando com essa fome maior. Estratégias para lidar com isso estão no texto sobre como controlar a fome.

Quanto essa adaptação pesa na prática

O tamanho da adaptação varia. Em perdas muito grandes e rápidas, pode ser marcante: participantes de um programa de TV de emagrecimento ainda gastavam cerca de 500 calorias por dia a menos do que o previsto seis anos depois. Em perdas moderadas, o efeito é bem menor: a adaptação diminui quando o peso fica estável por algumas semanas, deixa de aparecer depois de um ano e não serve para prever quem volta a ganhar peso.

O que fazer: contar com a adaptação no planejamento. Um emagrecimento acompanhado e em ritmo sustentável ajuda a lidar com ela.

Gasto energético total: as quatro partes do gasto do dia

Para entender o processo de emagrecimento, vale saber de onde vem o gasto energético total, ou seja, tudo o que o corpo gasta em um dia. É o número que o médico e o nutricionista usam para calcular o plano alimentar, e ele tem quatro partes.

Parte do gastoO que éPeso no gasto do dia
Taxa metabólica basalEnergia para manter o corpo funcionando em repousoA maior fatia: cerca de 60% em pessoas sedentárias
Efeito térmico dos alimentosEnergia para digerir e absorver a comidaCerca de 10% em uma dieta mista
Atividade que não é exercício (NEAT)Andar, subir escada, tarefas da casa, ficar em péDe 15% em pessoas muito sedentárias a 50% ou mais nas muito ativas
ExercícioO treino planejadoFração pequena para a maioria das pessoas

Taxa metabólica basal

É a maior fatia do gasto do dia, como mostra a tabela, e por isso a queda dela durante o emagrecimento faz tanta diferença.

O que fazer: preservar o músculo durante o emagrecimento, com treino de força e proteína suficiente.

Efeito térmico dos alimentos

Para digerir e absorver o que você come, o corpo também gasta energia. Esse gasto corresponde a cerca de 10% do total do dia.

A proteína é o nutriente que mais exige energia para ser digerida: de 20% a 30% da energia que ela fornece é gasta no próprio processo, contra 5% a 10% do carboidrato e até 3% da gordura (Nutrition & Metabolism). Esse é um dos motivos pelos quais peço aos pacientes que estão emagrecendo que aumentem o consumo de proteína, com carne, frango, ovos e peixe. A proteína também ajuda a preservar a massa muscular durante o emagrecimento, tema do texto sobre como emagrecer sem perder massa muscular.

O que fazer: incluir proteína nas principais refeições, com a quantidade ajustada na consulta.

Atividade física que não é exercício (NEAT)

É o gasto com tudo o que você faz ao longo do dia e que não é treino: andar, subir escada, colocar roupa no varal, limpar o chão, ficar em pé. É a parte do gasto que mais varia de uma pessoa para outra, como mostra a tabela.

O que fazer: buscar mais movimento no dia a dia, como usar a escada e passar menos tempo sentado.

Exercício: por que treinar mais não libera comer mais

A quarta parte é o gasto com o treino. Por mais que pareça muito para quem treina, na população em geral ele é uma fração pequena do gasto total do dia, e para a maioria das pessoas que não praticam exercício com regularidade fica perto de zero.

Por isso, cuidado com a armadilha de pensar "estou treinando mais, então posso comer mais". A energia gasta em um treino é pequena perto da energia de uma porção de comida, e compensar o treino na alimentação dificulta ainda mais o emagrecimento.

O que fazer: manter o treino, fundamental para a saúde, a força e a massa muscular, sem usá-lo como compensação na comida. O plano precisa ser controlado e calculado, com acompanhamento de um médico e de um nutricionista.

O que sustenta o emagrecimento no longo prazo

Como o corpo muda ao longo do processo, o plano também precisa ser ajustado. Alguns pontos fazem diferença para o resultado durar:

  • Composição corporal acima do número da balança. Perder gordura preservando músculo protege o metabolismo. A bioimpedância, que faz parte da Avaliação 360°, mostra o que está saindo do corpo além do peso.
  • Sono e estresse. Dormir mal e viver sob estresse crônico interferem na fome e no gasto de energia.
  • Intestino. A relação entre microbiota intestinal e peso é uma área de pesquisa crescente.
  • Uma estratégia alimentar que dê para manter. Mais proteína, refeições organizadas e, para algumas pessoas, estratégias como o jejum intermitente, sempre de acordo com o perfil de cada paciente.
  • Medicamentos com indicação médica. Para algumas pessoas, o tratamento medicamentoso faz parte do plano, sempre com avaliação e acompanhamento, nunca por conta própria.

Mesmo uma perda modesta já traz benefício: reduzir de 5% a 10% do peso diminui de forma significativa os fatores de risco para diabetes e doenças cardiovasculares (ABESO e SBEM).

É essa visão integrada que guia o Método SP: alimentação, exercício, sono, saúde metabólica e hormonal, saúde emocional e propósito trabalhando juntos, porque não adianta pensar só em emagrecimento se o paciente dorme mal.

Quando procurar avaliação médica

Vale buscar uma avaliação se o peso parou de cair há semanas sem mudança na rotina, se a fome não dá trégua, se o cansaço aumentou durante o emagrecimento, se você já viveu o efeito sanfona várias vezes ou se tem doenças associadas, como pressão alta, diabetes ou colesterol alterado.

Uma consulta que olhe composição corporal, metabolismo, alimentação, sono e exames ao mesmo tempo permite ajustar o plano a cada fase do processo de emagrecimento, em vez de repetir uma dieta que já deixou de funcionar. É assim que conduzo o tratamento de emagrecimento, presencialmente em Bauru ou por teleconsulta para todo o Brasil.

Perguntas frequentes

01

Quais são as fases do emagrecimento?

De forma simplificada, são quatro: nas primeiras semanas sai bastante água junto com o glicogênio; depois o corpo passa a usar a gordura de forma mais constante; com o tempo o ritmo diminui porque o metabolismo se adapta; e por fim vem a manutenção, que é a fase que define se o resultado fica.

02

Em quantos dias o corpo começa a perder peso?

A balança costuma mudar já nas primeiras semanas de déficit calórico, mas boa parte dessa queda inicial é água ligada ao glicogênio, o estoque de carboidrato do fígado e dos músculos. A perda de gordura acontece de forma mais lenta e contínua, e o ritmo varia muito de pessoa para pessoa.

03

A gordura é eliminada pelo xixi?

Só uma parte pequena. Quando a gordura é usada como energia, cerca de 84% da massa dela sai do corpo como gás carbônico, pela respiração, e cerca de 16% vira água, eliminada pela urina, pelo suor e por outras vias. Os cálculos foram publicados no BMJ em 2014.

04

Quanto tempo demora para emagrecer?

Depende do ponto de partida, do tamanho do déficit e da adaptação de cada corpo. Um modelo publicado no Lancet mostrou que, depois de uma mudança permanente na alimentação, cerca de metade da perda acontece no primeiro ano e quase toda ela em torno de três anos. Por isso o ritmo costuma diminuir com o tempo.

05

Quais sinais mostram que estou emagrecendo?

Além da balança, as medidas da cintura, o caimento das roupas, mais disposição no dia a dia e a evolução da composição corporal na bioimpedância são bons indicadores. O peso oscila de um dia para o outro por causa de água, sal e intestino, então a tendência ao longo das semanas diz mais que um único número.

Retrato do Dr. Thiago Viana

Quem escreve

Dr. Thiago Viana

CRM-SP 144.585

Nutrologia · Medicina do Esporte · Ortopedia e Traumatologia

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Fontes consultadas (14)
  1. Meerman R, Brown AJ. When somebody loses weight, where does the fat go? BMJ, 2014 (bmj.com)
  2. Kreitzman SN et al. Glycogen storage: illusions of easy weight loss. Am J Clin Nutr, 1992 (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
  3. Hall KD et al. Quantification of the effect of energy imbalance on bodyweight. Lancet, 2011 (pmc.ncbi.nlm.nih.gov)
  4. Rosenbaum M, Leibel RL. Adaptive thermogenesis in humans. Int J Obes, 2010 (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov)
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  6. Hu W et al. Leptin and leptin resistance in obesity: current evidence, mechanisms and future directions. 2025 (pmc.ncbi.nlm.nih.gov)
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  10. Frankenfield D et al. Comparison of predictive equations for resting metabolic rate. J Am Diet Assoc, 2005 (jandonline.org)
  11. Levine JA. Nonexercise activity thermogenesis (NEAT): environment and biology. Am J Physiol Endocrinol Metab, 2004 (journals.physiology.org)
  12. Westerterp KR. Diet induced thermogenesis. Nutr Metab, 2004 (pmc.ncbi.nlm.nih.gov)
  13. Wing RR, Phelan S. Long-term weight loss maintenance. Am J Clin Nutr, 2005 (europepmc.org)
  14. ABESO/SBEM. Atualização das Diretrizes para o Tratamento Farmacológico da Obesidade (abeso.org.br)

Este conteúdo é educativo e não substitui consulta.

Tratamento de emagrecimento com o Dr. Thiago Viana.

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